Homilia da Missa da noite de Natal 25/12/08

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        Queridos irmãos e queridas irmãs, através do advento, a liturgia preparava o nosso coração para esse grande momento celebrativo do nascimento do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, o Redentor do homem. “Nós esperamos o Salvador” (Fl 3,20) e agora, no silêncio desta noite, contemplamos aquele que fora gerado pelo sopro divino no seio da Virgem Maria. Contemplamos o Verbo de Deus, isto é, a sua Palavra, que se fez nossa carne. Toda a humanidade é chamada a contemplar esse mistério de amor. “O mundo admire: um tal nascimento é digno de Deus” (Hino para o ofício de leituras do tempo do advento após 16 de dezembro).

                   Caríssimos irmãos, essa noite nos revela um segredo: Deus pisou em nossa terra para ficar conosco. Deus pisou em nossa terra para “salvar o homem e a mulher formados do barro” (antífona Ó do dia 23 de dezembro). Ele é o Emanuel, o Deus conosco, para sempre.

                   O natal é uma mensagem de amor. O natal nos revela a ternura do pai no rosto sorridente de uma criança. Como é cativante o sorriso de uma criança. Faço essa experiência no meu contato com as crianças da nossa comunidade, isto é, com os seus filhos. O sorriso delas me educa a viver o amor de Jesus. No natal, “Jesus anuncia que quer plantar de novo a sua tenda aqui entre nós, mas também entre todos os povos da terra”. Contagiados ainda pela V conferência, queremos assumir o compromisso de uma Igreja missionária no “continente da esperança”. “Nós esperamos o salvador” (Fl 3,20). Guerrico de Igny no 1º Sermão para o advento nos ensina que, “a espera dos justos é alegria, pois o que eles aguardam é a esperança feliz e a vinda gloriosa de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo”(Tt 2,13). Mas será que ainda há espaço em nosso tempo para essa espera? Parece que não há mais nada a fazer senão buscar uma completa satisfação de toda sorte de desejos. Por isso, a festa do natal vai aos poucos perdendo o seu significado. Em torno do natal a mensagem que se anuncia é a do bem estar, dos presentes, dos enfeites, das luzes artificiais que ofuscam o olhar do homem impedindo-o de olhar para Cristo Redentor do homem. Então novamente nos perguntamos: “o que posso esperar?”. Podemos continuar esperando o Senhor, ele que é a única esperança do homem. Não ficarão decepcionados os que em ti esperam (Sl 24,3). Nossos pais te esperaram; todos os justos, desde a origem do mundo, esperaram em ti e não foram decepcionados (Sl 21,6). Depois, reconhecendo na humildade da carne a majestade divina, eles dizem: “Eis, este é nosso Deus, nós esperamos nele, ele nos salvará. Este é o senhor em quem esperamos!” (Sl 25,9). Esse é o segredo que Deus revela a sua Igreja no silêncio desta noite, para que ela o anuncie a todos os povos.

                   Queridos irmãos e queridas irmãs, olhando a realidade do mundo atual parece que nada mudou, desde quando foi anunciada profeticamente a vinda do Senhor. O povo que andava na escuridão, nos porões das prisões, a margem da sociedade, com fome e humilhado, atingidos pela violência que derrama tanto sangue, esse povo sofrido ao qual o profeta Isaías faz referência na 1ª leitura (9,1-6), revive ainda hoje a mesma dor e sofrimento. Para eles e para nós hoje, a mensagem profética é de esperança: as trevas, a escuridão, o sofrimento acabarão. Uma grande luz iluminará a vida dos sofredores. Essa luz é um menino – “Por que nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz”. Nos dias desse menino, começará um Reino novo: O jugo que oprime o povo será quebrado, não haverá mais violências, todos os instrumentos de guerra serão destruídos, botas e mantos manchados de sangue, serão queimados ao fogo. As palavras proféticas de Isaías se referem ao nascimento de Jesus. Seu nascimento marca um momento novo na história, ou melhor, seu nascimento divide a história para reuni-la em seu amor. “O reino de paz, de amor e de justiça, iniciado por esse menino rei, nós o constatamos todos os dias, ainda não está realizado. É pequeno ainda como um menino. Nasceu, sim, mas deve crescer, desenvolver-se contando com a nossa colaboração. Deus quer salvar o mundo, mas não exclui a colaboração humana. Através do salmo responsorial (Salmo 95/96) proclamamos que Deus governa os povos com justiça e fidelidade e assim cantamos no refrão: “Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor”.

                   Hoje Deus nos revela o segredo do seu coração. Ele tem um rosto e seu rosto carrega um eterno sorriso. O sorriso de Deus aquecia a fria noite na gruta de Belém e ao mesmo tempo atraia os que carregavam a marca da dor em seu rosto para se alegrar com seu nascimento. Frio, escuridão, corações fechados, distrações, falta de hospitalidade, marcavam a noite em que Jesus nascia. É o reino da morte fechado à vida. Silenciosamente, Deus vai ao encontro do homem aqui representado pelos pastores para lhes anunciar: “Eu vos anuncio uma grande alegria,… Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (v 10.11). É um anúncio que quer dizer: “Cristo, Redentor do mundo é aquele que penetra, de maneira singular e que não se pode repetir, no mistério do homem e entrou no seu coração. Cristo, novo Adão, na revelação do mistério do Pai e do seu Amor, revela plenamente o homem ao homem e descobri-lhe a sua vocação sublime” (João Paulo II, Redemptor Hominis, 8).

                   Amados irmãos, a salvação nasce entre os sofredores e excluídos (pastores). A eles se dirige a mensagem dos anjos na noite fria de Belém: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e Paz na terra aos homens por ele amados” (v14).

                   O mundo precisa acreditar na força do amor. Os cristãos precisam testemunhar a ternura de Deus para que o mundo creia que a “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens” (2ª leitura Tt 2,11). O mundo novo já começou na noite santa do nascimento de Jesus em Belém. Todavia, não está acabado, há muito por fazer ainda. É preciso haver uma renovação completa da nossa vida, a renúncia ao mal e aos maus desejos (impiedade, paixões mundanas) e uma firme e corajosa adesão ao Senhor, ou seja, se deixar render pela proposta do Evangelho que se traduz na pratica da justiça, da honestidade, e um desapego aos bens passageiros deste mundo.

                   Nessa noite fomos todos a Belém, casa do Pão. Lá encontramos a Palavra eterna de Deus que se fez carne e pão na eucaristia. Hoje conhecemos o segredo de Deus, Deus “deixa-se ver agora por meio do seu Filho,…” (Sto Irineu, Tratado contra as heresias. LH. Pág. 248. Vol. 1). “Para ele queremos olhar, porque só nele, Filho de Deus, está à salvação” (Redemptor Hominis, 7).

                   Maria, educada na escola do amor de Deus, é um coração preparado para amar e acolher a vida. Agora, discípulos missionários do seu Filho, queremos educar o nosso coração para ver e acolher Deus nos pequenos e fracos. Cada um seja uma mensagem do natal. Feliz Natal a todos!

 

                  

Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist.

Monge Cisterciense da Abadia Nossa Senhora da Santa Cruz de Itaporanga – SP.

Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP – Diocese de Itapeva – SP – Brasil.

                  

 

 



2º Domingo do Advento – Ano B – 07/12/2008

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Leituras Isaías 40,1-5.9-11

Salmo 85(84)

2 Pedro 3,8-14

Aclamação: Aleluia 3X “Preparai o caminho do Senhor; endireitai suas veredas. Toda carne há de ver a salvação do nosso Deus” (Lc 3.4.6).

Evangelho: Marcos 1,1-8 “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas, pois o Senhor vem para que voltemos a Ele”.

 Queridos irmãos e queridas irmãs, entramos na segunda semana do tempo litúrgico do advento e a liturgia hodierna nos convida a olhar para o Senhor que vem. Isso requer uma preparação interior do coração, ou segundo as palavras do profeta, “Preparai o caminho do Senhor” (1ª leitura e evangelho). “Estamos a caminho, em meio a um mundo de tantas contradições: quanta injustiça gerando mortes! Estamos a caminho, também em meio a um mundo de tantos sinais de vida, com muita gente humilde fazendo da sociedade um lugar do grande sonho de Deus” (roteiros homiléticos cnbb, ciclo natalino B 2008/2009, p.21). Quando sentimos nossos pés pisar no chão, percebemos que estamos a caminho e que ao lado desse caminho, muitos outros caminhos vão se juntando. Todos os caminhos têm um objetivo comum: conduzir o que caminha ao lugar do seu destino. Em meu vôo de São Paulo a Maceió, não pude perceber isso com muita clareza, embora acreditasse que a rota traçada havia se transformado em um caminho que me levaria à casa dos meus pais aqui em Arapiraca -Al. Das alturas, olhava pela janela do avião e via muitos caminhos a baixo de mim. Na verdade, sentia um desejo de descer e andar por todos eles, haja vista a beleza que vislumbrava. Não podia esquecer-me das palavras do profeta Isaías proclamadas na liturgia do 1º domingo do advento “ah! Se rompesses os céus e descesses!… Descestes, pois e as…”. Para minha surpresa, a rodovia que me conduziria até Arapiraca estava passando por reformas, isto é, estava sendo recapeada. De imediato me lembrei das palavras de Isaías e de João Batista: “Preparai o caminho do Senhor”. Mas podemos nos perguntar: porque tanta insistência nesse ponto? A resposta é simples e profunda ao mesmo tempo. Para que voltemos a ele que nos procura. Reconstruir é uma necessidade humana assim como é humano caminhar. Por isso, as leituras de hoje nos apresentam um Deus muito próximo. Ele caminha ao lado do seu povo, se compadece, se enche de ternura. Como o Pastor, ele caminha à frente do rebanho e tange as ovelhas mães (1ª leitura) e com elas, faz entrar no redil do seu amor todo o rebanho. Sua ternura cancela toda a culpa do seu povo (rebanho), “para reconduzi-lo, livre, da terra da escravidão, à sua própria terra. Bom pastor cuida dos fracos e pequenos; Deus forte alegra-se em perdoar e renovar todas as coisas” (missal dominical, paulus, p. 35). A leitura contém um anúncio de salvação para toda a humanidade. O salmo responsorial confirma esse anúncio quando canta: “Está perto a salvação dos que o temem e a glória habitará em nossa terra”. No meio do deserto, João Batista proclama uma mensagem de conversão (evangelho). Conversão do coração e da mente, isto é, transformar a aridez do nosso coração num caminho pleno do amor e da ternura de Deus. No deserto grita uma voz. O que grita? “Preparai o caminho do Senhor” (Mc 1,3). “É esta a pregação evangélica que traz um novo consolo e deseja ardentemente que o anúncio da salvação de Deus chegue a todos os homens” (liturgia das horas vol. 1, p.167). A pregação de João Batista contém forte apelo à conversão como condição para se acolher o Senhor. De fato, as pessoas que o escutam no deserto, acolhem a sua pregação e confessam seus pecados. O deserto se alegra! Enche-se de vida! O deserto se transforma num novo Éden. No deserto, o Senhor encontra seu povo e o povo, encontra seu Senhor! A mística do advento é a da confiança irrestrita no Senhor. Aquele (a) que o encontra, já não experimenta mais o medo, uma vez que o amor lança fora o temor. Por isso, nada de especulação sobre o momento da sua vinda. Importa mesmo é assumir a dimensão oblativa do serviço. É nesse sentido que deve sem interpretada a 2ª leitura da carta de São Pedro. O Senhor virá e cumprirá a sua promessa. Sua demora significa a expressão da paciência de Deus pela nossa conversão. Então, se as coisas provisórias deste mudo desaparecerão como chamas, importa assumir o compromisso de uma vida santa, devota e piedosa. Com outras palavras: a santidade de vida e a piedade “dão segurança e tranqüilidade no meio dos elementos que se dissolvem” (missal dominical), enquanto aguardamos o céu novo e a terra nova.

Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist. Monge Cisterciense

 da

Abadia N. Sra da Santa Cruz de Itaporanga – SP.

Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP.

Diocese de Itapeva – São Paulo – Brasil.



1º Domingo do Advento – 30/11/2008

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Leituras Bíblicas

Isaías 63,16b-17. 19b; 64,2b-7

Salmo 79(80)

1corintios 1,3-9

Matheus 13,33-37

 

Advento, tempo de espera!

Tempo de uma bonita primavera!

 

         Queridos irmãos e queridas irmãs, iniciamos hoje novo ano litúrgico. Estamos vivendo o tempo litúrgico do advento que tem dupla finalidade: 1º recorda-nos a primeira vinda do Senhor na carne; 2º nos convida a aguardar a sua 2ª vinda. O tempo é de expectativa. Por isso urge “Vigiar”, pois o Senhor virá. Certa como o entardecer que anuncia a aurora de um novo dia, o Senhor virá numa hora imprevista. Feliz do porteiro e dos empregados que forem encontrados empenhados na vivência do amor serviçal (Evangelho).

 

         As leituras bíblicas nos convidam a reflexão e a uma revisão de vida.

         Na primeira leitura, o profeta Isaías dirige uma oração de súplica ao Senhor, Deus que é Pai e Redentor.

         O contexto da leitura é o do exílio onde o povo experimenta um certo silêncio de Deus. Por isso, “Não há quem invoque teu nome, quem se levante para encontrar-se contigo” ( v. 6). Será Deus o culpado por tão situação? Não será antes a desobediência de Israel, o povo eleito? Sim, “Todos nós nos tornamos imundície, e todas as nossas boas obras são como pano sujo, murchamos todos nós como folhas, e nossas maldades empurram-nos como o vento” ( 64,5). Mas diante de tal situação o Senhor não nos abandona, ele caminha ao nosso encontro, vem e desce para ficar conosco, para nos dar nova forma, isto é, chamar-nos de volta a nossa originalidade para que reflitamos a sua imagem divina. O refrão meditativo do salmo responsorial expressa para toda a criação esse desejo santo – “Iluminai a vossa face sobre nós, convertei-nos, para que sejamos salvos”!

 

         O advento como tempo de uma primavera bonita de Deus na vida da Igreja, é o tempo para se viver a alegre expectativa pela vinda do Senhor.

         A parábola de Jesus é a parábola do homem que parte em viagem e dá instruções de vigilância. O homem da parábola é o pai de família. Ele parte, mas antes entrega tarefas aos membros da casa. No interior da casa o clima é de expectativa pela vindo do pai. Todos o amam e sentem sua ausência. Por isso antecipam sua volta pela alegria do serviço. No serviço alegre aos demais membros da casa, vive-se a alegria da presença do pai. O importante não é saber a hora, o importante é saber viver cada hora no serviço aos irmãos. Isso é saber vigiar, verbo que aparece quatro vezes no Evangelho de hoje. “Vigiar é ter para com Jesus a atenção que suscita o amor”. Muitos membros da nossa família paroquial souberam viver essa vigilância e nos ensinaram a viver a vida como um grande dom de Deus. Caridade! É o que disse um deles, o Chede a um dos seus filhos antes da sua páscoa com o Senhor.

         Queridos irmãos, diante do convite do Senhor, deixemos de lado: 1º - o sono; 2º - indiferença; 3ª - a preguiça. Nossa postura seja a da vigilância marcada pelo amor.

 

         A segunda leitura nos ajuda a orientar toda a nossa vida para o Senhor, uma vez que aguardamos a “revelação do Senhor nosso Jesus Cristo” (v.7). Esse é o sentido do Evangelho na vida de uma comunidade, a ponto de tornar-se ela mesma, espelho vivo do Evangelho de Jesus para o mundo. Uma comunidade de discípulos missionários assume como sua vocação, orientar todos para Jesus Cristo.

 

         Feliz Advento!

 

 

Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist.

Monge da Abadia Cisterciense N. Sra da Santa Cruz de Itaporanga – SP.

Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP.

Diocese de Itapeva – SP – Brasil.



Dedicação da Basílica do Latrão

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Leituras: Ezequiel 47,1-2.8-9.12

Salmo    45,2.3.5.6.8.9

1Cor      3,9c-11.16-17

Aclamação – Aleluia 3x – Esta casa eu escolhi e santifiquei, para nela estar meu nome para sempre” 2 Cr 7,16

Evangelho João 2,13-22

 

Queridos irmãos e queridas irmãs, hoje celebra-se em toda a Igreja, a festa da  dedicação da Basílica de São João de Latrão, a catedral do papa, bispo de Roma. Inicialmente dedicada ao Divino Salvador, mais tarde foi também dedicado ao Apóstolo São João Evangelista e ao precursor do Senhor, São João Batista. Hoje todas as Igrejas do mundo, unindo-se a Igreja de Roma, mãe de todas as Igrejas, reconhecem a “presidência da caridade” segundo as palavras do grande bispo Santo Inácio de Antioquia. Todo edifício-Igreja é consagrado a Deus para ser o espaço sagrado do encontro pessoal e do diálogo do homem com Deus, lugar do culto a Deus por excelência, onde se oferece a Deus o sacrifício do seu agrado.

                  Queridos irmãos e queridas irmãs, “Vós sois lavoura de Deus”, “Vós sois o santuário de Deus” (2ª leitura, 1Cor 3, 9c e 17). Por isso, os espaços sagrados, dedicados e consagrados a Deus, são lugares de encontro e diálogo pessoal com o Deus amor e esse espaço, é o corpo de cada batizado e batizada – “Vós sois o santuário de Deus”. A mulher Samaritana no seu encontro com Jesus manifestou uma visão limitada quanto ao lugar do culto a Deus. Para ela, a montanha (Garizin) era o lugar do encontro com Deus ao mesmo tempo em que reconhece a visão religiosa de Israel, Jerusalém era o lugar onde se devia adorar a Deus, no templo. Jesus lhe ensina a superar tal concepção de Deus como se um lugar fosse capaz de encerrar a presença de Deus ( 1Reis 8,22-23.27-30; João 4,7-30), “Crê, mulher, vem a hora em que nem sobre esta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos.porque a salvação vem dos judeus. Os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade”. É no corpo de Jesus morto e ressuscitado que se constrói o novo edifício sagrado, o novo templo, onde cada batizado é colocado como pedra ou tijolo da nova construção, tendo Cristo como alicerce. Cristo é nossa vida. Nele fomos enxertados na raiz do seu amor que nos conduz ao coração do Pai. A Igreja é o Corpo de Cristo. Somos a Igreja de Cristo. Em cada pessoa criada a imagem e semelhança de Deus se pode reconhecer a presença do Deus vivo. Cada batizado é santuário de Deus. Violar a santidade desse santuário é profanar a santidade de Deus que nele habita.

                  Há quase dois anos (12/12/2008) celebramos a dedicação dessa nossa Igreja paroquial dedicada ao Senhor Bom Jesus. Essa Igreja é bonita, por que vocês são bonitos na generosidade dos seus corações (missa das crianças). Hoje temos a alegria de celebrar o novo nascimento pelo batismo de oito crianças da nossa comunidade. “Pelo batismo fomos todos feitos templos de Deus”. São Cesário de Arles (VI Séc) em um dos seus sermões assim se expressa: “Pelo primeiro nascimento éramos vasos da Ira de Deus; pelo segundo, foi-nos dado ser vasos da sua misericórdia” e continua: “Todos nós, antes do batismo fomos templos do demônio; depois do batismo, obtivemos ser templos de Cristo”. Por isso, escrevendo aos cristãos de Corinto, Paulo lhes recorda o valor da sua missão pastoral, “excelente mestre de obra”, coloca Jesus Cristo na base do alicerce da comunidade cristã. Daqui a pouco, jorrará a água sagrada da fonte do novo altar, Cristo, para santificar e dar nova vida a essas crianças, fruto do amor dos seus pais.

                  Com essa belíssima imagem do santuário, somos transportados pelo profeta Ezequiel as ruínas do templo de Jerusalém, glória da nação israelita. Exilado com seus compatriotas na Babilônia, o profeta numa visão é conduzido à entrada do Templo. Ele é acompanhado por um homem. O profeta vê brotar uma fonte de água viva. A água saia do lado sul do altar e corria na direção do oriente. São águas saudáveis que levam vida e saúde. Por onde essa água passa, tudo se renova, a natureza, a vida marinha, a vida das pessoas doentes etc. Água é fonte de vida! Parece que essa água faz brotar uma nova criação. Isso é verdade. Mas essa nova criação só acontecerá na Páscoa de Cristo.

                  Do altar do Templo brota uma fonte. O altar é Cristo segundo Santo Agostinho. É desse altar que continuam jorrando a água da Salvação, isto é, a água do batismo. É desse altar que continua a jorrar o Sangue do Cordeiro, sinal da Eucaristia que alimenta e dá saúde aos enfermos e a todo o povo que caminha, construindo a Jerusalém celeste.

                  Essa imagem do altar nos lembra a passagem evangélica de João (19,37) “Olharão para aquele que traspassaram”. O traspassado é o redentor do homem e da nova humanidade por ele remida.

                  No Templo, quando se aproximava a Páscoa hebraica que celebrava a libertação da escravidão egípcia, Jesus encontra o lugar sagrado transformado numa bolsa de valores. Tudo é comércio. Não há mais espaço para um culto verdadeiro. Os interesses dos grupos se sobrepõem aos valores da fé, do amor e da vida. Jesus não suporta a profanação da casa do Pai. Tomado de zelo, organiza a limpeza da casa de Deus, fazendo inclusive, uso de um gesto agressivo. Seu gesto é profético e só foi compreendido pelos apóstolos que acreditaram na escritura e na palavra dele, à luz do evento pascal.

                  Com seu gesto profético, Jesus substitui as vítimas para o sacrifício, colocando-se ele mesmo como altar, cordeiro e sacrifício. O novo Templo reconstruído por ele, é o Templo do seu corpo morto e ressuscitado. É ele, a fonte viva de onde jorra a água que purifica o templo. Nós os batizados somos “santuário de Deus”, purificados no batismo. O batismo é nosso novo nascimento, quando nos tornamos vasos da misericórdia de Deus.

                  Em Aparecida (V Conferencia), os bispos latino-americanos e do Caribe nos lembram nos números 396-396, que a Igreja presente no continente da esperança, “é chamada a ser sacramento de amor, de solidariedade e de justiça entre nossos povos”.    

                  A festa de hoje é uma festa em honra do Senhor. O verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Cristo ressuscitado está presente na sua Igreja. Amém!

 

Pe. Basilio J. Ilton Alves, O. Cist.

Monge Cisterciense da Abadia N. Sra da Santa Cruz de Itaporanga – SP.

Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP.

Diocese de Itapeva – São Paulo – Brasil.



Solenidade de Todos os Santos

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            Queridos irmãos e queridas irmãs, numa só festa, a Igreja celebra hoje o dia de todos os Santos e Santas. Hoje, a Igreja celebra a Páscoa de Jesus em seus filhos e filhas que viveram o mandamento do “Amor a Deus e ao Próximo” (Ex 22,20-26; Mt 22,34-40 – XXX Domingo do Tempo Comum, Ano A). Os Santos e Santas que celebramos hoje viveram todas as páginas da Sagrada Escritura, porque viveram o amor de Cristo no serviço à vida e aos irmãos. A Santidade de Deus pode ser alcançada por seus filhos e filhas. Essa “aspiração se realiza em Cristo; ele irradia a santidade de Deus (missal dominical, p. 1367) e santifica toda a humanidade”.

            A santidade é dom de Deus ao seu povo e Cristo comunicou esta santidade a sua Igreja, isto é, a cada membro do seu corpo, por meio dos sacramentos que trazem ao homem a vida de Deus. “A santidade não é fruto de esforço pessoal”, mas resposta do homem e da mulher ao dom de amor do Pai.

            Caríssimos irmãos e, caríssimas irmãs, vivemos num mundo carente de santidade. Falar de santidade hoje parece uma piada. Tem razão o Pe. Virgílio que escreve na última página do nosso folheto “O Domingo” – “Coisas estranhas andam acontecendo neste mundo de Deus: os santos, para serem aceitos ou tolerados, precisam tornar-se estátuas. Porque é claro, uma estátua não incomoda, não perturba, não denuncia. Só os santos que ainda vivem conosco é que podem complicar a nossa existência”. Mas não nos esqueçamos, os santos de ontem, também foram desprezados, julgados e até condenados e mortos como mártires da fé e do amor. Se hoje os reverenciamos, é por que reconhecemos que eles se deixaram transformar pelo amor de Cristo que renova tudo. Aliás, o próprio amor, vivido por eles, é que é a testemunha de sua santidade.

            Mas, como andam os santos e santas de hoje? Eles existem ainda? Nossa comunidade tem santos e santas? Como comunidade, caminhamos para alcançar essa meta? Queremos atingir essa meta? – Na carta Apostólica, NMI , o Santo Padre o Papa João Paulo II, ao convocar toda a Igreja a viver o grande jubileu do ano 2000, nos ensina que “o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade” e “apontar a santidade permanece de forma mais evidente uma urgência pastoral”(n.30). E continua: “Este dom de santidade, é oferecido a cada batizado”. Mas, “o dom gera, um dever, que há de modelar a existência cristã inteira: Esta é à vontade de Deus: a vossa santificação (1Tes 4,3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e a perfeição da caridade” (LG 40). Mas o que significa colocar a santidade dentro do nosso programa de pastoral? “Significa exprimir a convicção de que, se o batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contra senso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: queres receber o batismo? Significa ao mesmo tempo pedir-lhe: Queres fazer-te Santo? Significa colocar na sua estrada o radicalismo do sermão da montanha: ‘Sede Perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste’(Mt 5,48)”.

            O mundo atual exige santos e santas novos. O ideal da santidade, nos lembra o concílio Vaticano II, não é um caminho percorrível apenas por algum gênio da santidade. “Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um”. Precisamos descobrir nossos santos e santas nos lugares onde vivem e trabalham. Eles estão em casa, nos escritórios, nas escolas, nas fábricas, nas universidades, no trabalho informal, na roça, no corte de cana, limpando nossas ruas e praças. Em todos esses lugares, há homens e mulheres santos, que fazem do Evangelho o seu programa de vida. Santo, santa, é toda pessoa, discípulo e missionário, homem ou mulher, que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores (DA 147). Ao participar da missão de Jesus, “O discípulo caminha para a santidade”. Santidade não é “fuga para o intimismo ou para o individualismo religioso, tampouco abandono dos grandes problemas econômicos, sociais e políticos da América Latina e do mundo, e muito menos fuga da realidade para um mundo exclusivamente espiritual” (DA 148). Todos somos na Igreja particular e na paróquia, “convocados à santidade na comunhão e na missão”, pois “A comunhão é missionária e a missão é para a comunhão” (DA 163). Portanto, toda a vida da nossa comunidade paroquial deve apontar a santidade como meta sublime para as famílias, os jovens, adolescentes e crianças. Alimento dessa meta deve ser a oração. A oração purifica o coração e ilumina a nossa consciência de batizados, discípulos e missionários chamados à santidade. Um santo que não reza, é só um santo que faz coisas, ao passo que um santo que reza, é um santo que entra na intimidade do coração do Senhor e conhece os seus segredos, saindo da oração com o coração iluminado para ser “Sal” e “Luz” no meio do mundo.

            Mas cada santo ou santa tem tribulações a enfrentar. Olhando para Cristo, o Cordeiro vencedor, é nele que ele descobre o mistério do sofrimento e da sua própria existência. Por isso, perseverando em seu caminho de amor, recebe a veste branca da imortalidade e a palma da vitória, ao misturar o seu próprio sangue no Sangue do Cordeiro (1ª leitura, Ap 7,2-4.9-14). É uma grande multidão! Gente de todos os cantos da terra participam da vida nova do Cordeiro redentor, que no seu Sangue, tira o pecado do mundo. E então, “seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (2ª leitura 1Jo 3,1-3). Esse é o presente que o Pai dá a seus filhos e filhas.

            Queridos irmãos e queridas irmãs, o Sermão da Montanha contém todo o programa para quem deseja percorrer o caminho para a santidade. Não é um programa para os anjos, mas para os discípulos, isto é, gente como nós, que escutavam Jesus quando ele desceu do monte santo. Bem aventurada não é a pobreza, nem a miséria, nem qualquer espécie de sofrimento, bem aventurado é quem partilha do caminho de Jesus. Esse sim, mesmo sem o saber ou até mesmo sentir, considere-se bem aventurado, por que, desprezado pelo mundo, é acolhido por Deus.

            Queridos irmãos e queridas irmãs, há dez anos, assumi o ministério de pároco dessa comunidade ouvindo essas leituras bíblicas. Eu, que a princípio achava que não iria agüentar três meses, coloco hoje no altar do Senhor dez anos de serviço a Deus e ao seu povo de Riversul. Esses dez anos contém, como sabeis, alegrias, tristezas, suor, lágrimas e até mesmo mudanças biológicas, aquelas transformações próprias da nossa condição humana, ou melhor, um pouco de envelhecimento. Mas valeu a pena. Ouvindo hoje a mesma Palavra proclamada por mim há dez anos, reafirmo meu compromisso, embora, com menos vigor físico, de continuar servindo ao Senhor e a sua Igreja, não somente aqui, mas também em outros lugares. Obrigado pela acolhida! Obrigado pela colaboração! Obrigado pela amizade! Obrigado pelo Carinho e compreensão! Obrigado por tantos sorrisos e apertos de mãos! Ao longo desses dez anos, crescemos na consciência da nossa vocação comum. Como os santos fazem no céu, rezemos uns pelos outros. A oração dos santos numa comunidade de fé é manifestação de solidariedade e amor.



XXVII Domingo do Temo Comum – Ano A

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“A Vinha do Senhor é a Casa de Israel!”

 

Isaías 5,1-7

Salmo 79.9.12.13.1415.16.19.20

Filipenses 4,6-9

Aclamação ao Evangelho

Aleluia 3x – Jo 15.16

Evangelho 21,33-43

 

            Queridos irmãos,

            Queridas irmãs,

            O tema da Vinha reaparece novamente na liturgia de hoje com o objetivo de mostrar os saborosos frutos que a vinha deve produzir, nesse caso, frutos de justiça e de direito.

            Na verdade, o tema da Vinha quer nos falar do profundo amor de Deus pela humanidade. Isso se torna claro pela forma como o profeta Isaías se serve de um poema para falar da vinha de um amigo seu.

            Sim, a Vinha do Senhor é a casa de Israel! O povo eleito é a dileta videira do Senhor, não por ser o melhor povo entre os povos da terra, na verdade é um povo pequeno e insignificante frente aos outros.Mas é o povo pelo qual o Senhor demonstra uma afeição especial, escolhendo-o para ser “Luz” entre as nações.

            Na verdade, sob a forma de parábola, o profeta canta o cântico da vinha de um amigo seu em tom de acusação contra Israel. Primeiramente o cântico descreve o amor zeloso do dono da vinha. Ele limpa e prepara o terreno em “fértil encosta”, constrói um muro de proteção, uma torre de guarda, um lagar para pisar as uvas e do Egito, transporta a sua videira querida (salmo 79,9). Claro que, o amor do amado, isto é, o senhor da vinha, espera frutos de amor – “até o mar se estenderam seus sarmentos, até o rio os seus rebentos se espalharam” (Salmo 79,12). Todo amor espera ser correspondido – “Esperava que ela produzisse uvas boas, mas só produziu uvas selvagens” (v.2). Seu projeto foi por água abaixo. A partir daqui, Deus toma a Palavra para censurar a falta de correspondência ao seu amor por parte da vinha, bem como nos mostrar as conseqüências da ingratidão: “Vou desmanchar a cerca, e ela será devastada; vou derrubar o muro…; vou deixá-la inculta e selvagem…” (vv.5-6). Como conclusão: o povo que haveria de dar frutos de justiça e fidelidade por ser vítima do sofrimento em terra estrangeira, facilmente se esqueceu do compromisso e da aliança quando se viu em melhores condições. Justiça e direito quando são deixados de lado, a vida de um povo está destinada ao fracasso.

            Em Jerusalém, no interior do templo, Jesus retoma esse tema em seu diálogo com os sumos sacerdotes e anciãos do povo. É mais uma parábola que Jesus lhes conta. “Escutai essa outra parábola” (v.33). Veja, ele pede para escutar. Sabemos que escutar é mais do que ouvir. “Trata-se de parábolas de  confronto e de conflito entre o Mestre da justiça e os promotores da sociedade injusta. Na parábola de hoje, são eles os vinhateiros. Não só não produzem frutos de justiça e direito, mas impedem que os mensageiros (os profetas) suscitem no povo esses mesmos frutos”(vida pastoral, Set / Out 08. P.52).

            Vejamos como o projeto da vinha é retomado. “Certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar…, arrendou-a a vinhateiros e viajou para o estrangeiro” (v.33). Todo cuidado e zelo do proprietário da vinha revelam que ele não quer nada para si, antes quer doar de si, isto é, a sua parte. O Pe. Bortolini, na já citada revista, acrescenta – “A historia é o tempo e o lugar onde Deus quer colher frutos de justiça e de direito”. O momento da colheita e, conseqüente devolução da parte do proprietário, é marcada por um grande sentimento de egoísmo, aliado da inveja, que gera, espancamento de uns, apedrejamento de outros, bem como assassinato de outros. Mata-se a todos, isto é, os profetas, para que eles não “suscitem no povo” os frutos da justiça e do direito.

            Em seu Filho, que como todos os profetas, também será espancando, morto e, jogado para fora da cidade, Deus retoma o seu projeto original. Ele que havia abandonado a sua vinha, volta agora ao seu encontro para refazê-la na pessoa do seu Filho, pedra angular, isto é, pedra principal que fora jogado fora da vinha. O Senhor abandona a sua vinha por um período provisório, a fim de voltar no momento oportuno na pessoa do seu Filho a fim de dar a sua vida pela vinha. Só o seu amor pela vinha poderá fazer ela produzir os frutos do direito e da justiça como expressão de fidelidade à aliança. Na verdade, a união do Filho com a vinha se tornam uma união esponsal, uma vez que a vinha é símbolo do amor. Unida ao esposo, a vinha dará os frutos esperados.

            De fato, o esposo da vinha, espera uma atitude dos que o escutam. Mas como eles partem do principio de que é legitimo matar e tomar a vinha para dá-la a outros, isto é, dar continuidade ao que eles já fazem, Jesus declara solenemente: “O Reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos” (v.43). Isso se dará sem violência da parte do proprietário. Mas nos perguntemos agora: “Em nossa vida diária não há algum tipo de cumplicidade” com os vinhateiros homicidas? O que temos feito na prática pelo estabelecimento da justiça e do direito no mundo atual? A Palavra de Deus nos questiona muito. O fato de sermos cristãos não nos garante o Reino. Somos escolhidos para sermos sinal do amor, da misericórdia e da salvação de Deus. É preciso provar essa escolha de Deus com frutos e ações concretas de justiça e direito. Ser Cristão é dar a vida”(Roteiros homiléticos, CNBB, Set / Out / Nov. Ano A – 2008 ).

            Esta Parábola nos ensina a paciência de Deus. Ele tem paciência com o povo. “Finalmente, envia seu ‘Filho amado’, Jesus, para no-lo revelar e dar contas a ele. Mesmo que alguns o rejeitem e alguns de nós continuemos a fazê-lo, Deus ainda não expulsou os arrendatários. Mas a parábola nos diz que chegará o tempo em que, como o dono da vinha, a paciência de Deus terminará e seremos chamados a dar conta da nossa administração da vinha” (John L. McLaughlin, Parábolas de Jesus, Ed. Ave Maria. P.88).

            Paulo, Apóstolo missionário, apaixonado por Jesus Cristo Crucificado, escrevendo aos Filipenses recomenda não ser necessário inquietar-se, perder a cabeça diante dos obstáculos, mas, com orações e súplicas, apresentar a Deus na Eucaristia, o que cada um precisa, pois a Paz e a justiça, brotam da Cruz. Esses são os primeiros e grande fruto da nova vinha.

Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist.

Monge Cisterciense e Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP. Diocese de Itapeva – SP.

U. I. O. G. D.



XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

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“O bem da Obediência!”

 

1ª leitura Ezequiel 18,25-28

Salmo 24,4bc-5.6-7.8-9

Filipenses 2,1-11

Aclamação ao Evangelho João 10,27

Evangelho Matheus 21,28-32

 

            Queridos e irmãos e queridas irmãs,

Encerrando o mês da Bíblia que este ano teve como tema “A Caridade sustenta a Comunidade” (1ª Coríntios), a liturgia de hoje nos oferece como tema, “O bem da obediência”. Na verdade, Cristo é o centro e o sentido da Sagrada Escritura. No centro da lição de hoje, está a figura de Jesus, “modelo de Filho fiel e obediente que se torna servo e convida os que se dizem seguidores dele a terem o mesmo sentimento que existe em Jesus Cristo” (cnbb, roteiros homiléticos, ano A 2008).

            A denúncia profética de Ezequiel pelo comportamento de Israel cativo na Babilônia (1ª leitura) que responsabiliza Deus pela situação de pranto em que se encontram, longe da pátria e do templo, é o jeito do profeta querer ajudar seus irmãos, a entender a vontade de Deus. A situação concreta que vivencia Israel, não pode ser levada em conta de fatalismo, visto nesta perspectiva, o exílio seria apenas conseqüências das graves faltas e pecados dos antepassados, o que levaria a legitimar o provérbio popular, “os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados” (Ez 18,2). Não resta dúvida de que, o exílio, como qualquer espécie de sofrimento, é sempre conseqüência de uma série de erros, entre os quais, se destaca a injustiça e o abandono de Deus e da sua lei. O que o profeta quer ensinar é que a “a salvação de uma pessoa não depende de seus antepassados e parentes”. Ela é dom gratuito de Deus. Deus olha o coração atual de cada um. Logo, podemos concluir afirmando que a conduta do Senhor não é errada por duas razoes: 1ª Deus quer salvar a todos, inclusive o injusto que se arrepende; 2ª admitir o próprio erro, é da parte de Deus, uma oportunidade para que se convertam mudando de vida. O “não” dado pelos antepassados deve ser visto numa perspectiva de saída, o “Sim” de Israel a Deus e a sua Palavra.

 

            Com o texto evangélico que evidencia a parábola dos dois filhos, Jesus chama a atenção dos Sacerdotes e anciãos e também a cada um de nós em particular, sobre o modo como aplicar a justiça do reino na caminhada dos discípulos missionários.

            Dois filhos e duas atitudes diferentes. Em um e outro, podemos nos encontrar. É uma parábola questionadora. O pai se dirige aos dois para fazer o mesmo pedido: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha!”. O primeiro, mas impulsivo, responde até de forma a machucar o coração do Pai – “não quero”. Mas pensando na dor que provocou no coração do Pai, se arrepende e vai. O segundo, cheio de boas maneiras e muito refinado, responde – “Sim, senhor, eu vou, mas não foi”. Na verdade, o filho mais velho representa os pecadores e marginalizados, ao passo que o segundo, o antigo Israel, mas também nós, podemos representar o segundo filho, dissemos nós, é verdade, por que muitas vezes dissemos sim a Deus, e continuamente voltamos atrás negando nosso amor ao Senhor e aos irmãos. O meu confrade, Pe. Tadeu de Oliveira, O. Cist. Em seu livro “Parábolas do Reino”, a respeito dos dois filhos, faz o seguinte comentário: “Os dois filhos da parábola falam por si mesmo, portanto, do Mistério da Salvação: um dos dois acatará a ordem do pai, o outro não”. O “não” do primeiro reflete o “não servirei do homem do paraíso terrestre, a desobediência”. O segundo diz “Sim, Senhor, mas não foi”. Esse último “reflete a nova condição do ser humano, depois da remissão de Jesus”. E mais a frente, acrescenta o seguinte comentário: “Não só a Igreja representa aqui o primeiro dos filhos, mas os publicanos e as meretrizes, gente excluída, porém, que se rende aos apelos de Deus”(obra citada p. 55 e 56). Sim, estes, se rendem aos apelos de Deus, ao ouvirem a pregação de João Batista e entram na dinâmica do reino que vem, ao passo que, os já religiosos, seguros de si e de sua própria santidade, não são capazes de perceber a passagem do Senhor em suas vidas. É triste que, se auto-excluam do reino.

            Essa página evangélica me faz lembrar do capitulo 5º da regra de são Bento onde ele afirma que “o 1º grau da humildade é a obediência sem demora” e o temor de Deus (RB 7,10) é o primeiro grau da humildade.

            Jesus Cristo, existindo em condição divina, encontrado com aspecto humano, humilhou-se e fez-se obediente ao Pai até a morte de Cruz. Sua obediência deve ser a nossa resposta de amor ao Amor de Deus por todos. Por isso, ele é modelo do homem fiel e obediente oferecido por Paulo à comunidade cristã, mas crucificado em sua cruz, para que, todos na comunidade ao contemplar aquele que traspassaram (Jo 19,37), tenham “o mesmo sentimento” de Jesus por seus irmãos.

            Obediência não é submissão passiva, mas “dar audiência” a quem merece, isto é, escutar Deus, acolher sua Palavra. O que importa não é dizer “sim”, mas saber fazer “Sim”.

 

Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist.

Monge Cisterciense

Pároco de Riversul – SP.

Diocese de Itapeva – SP.



XXV Domingo do Tempo Comum – Ano A

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Isaías 55,6-9

Salmo 144(145) vv. 2.3.8.9.17 e 18

Filipenses 1,20c-24.27ª

Aclamação Aleluia 3x – At 16,14b

Matheus 20,1-16

 

                        Queridos irmãos e irmãs, a liturgia desse domingo nos convida a viver o sentido da aliança que o Pai bom e misericordioso deseja renovar com os seus filhos. É uma aliança que é, dom gratuito do seu amor, selada em Jesus Cristo na sua morte e na sua Páscoa!

 

                        Como tema central da liturgia, destaca-se a figura dos operários da vinha e a bondade do patrão. Eles formam dois grupos de operários. 1º grupo: operários da primeira hora e 2º grupo: operários da última hora. Esse grupo tem mais gente. Na bíblia, a vinha é imagem do povo de Israel, o povo eleito, o povo da antiga aliança. O texto mais famoso que se serve dessa imagem é o do profeta Isaías 5,1-7, que também é uma parábola.

                        Mas voltemos nossa atenção ao sentido dos textos bíblicos que a liturgia de hoje nos oferece.

                        Na parábola do Evangelho Jesus compara o Reino de Deus a uma vinha. O dono da vinha sai logo de madrugada para contratar operário. Logo que ele chega à praça central da cidade, encontra trabalhadores a espera de alguma proposta de trabalho para aquele dia. Notemos que o dia ainda nem amanheceu. Quando o sol se levante no horizonte, alguns operários já tinham aceitado o convite e já se encontravam na vinha. Assim era o costume na Palestina – “os que procuram emprego se reúnem num determinado lugar conhecido tanto pelo que querem emprego como pelos empregadores”. Tais trabalhadores se “encontram em uma situação vulnerável. Diferentes dos que tem emprego fixo são dependentes de qualquer trabalho que consigam dia a dia. Se não acham trabalho não ganham nada, e suas famílias não podem comprar alimento nem, talvez, um lugar seguro para dormir a noite” (Parábolas de Jesus – John L. Mclaughlin, AM, pp. 77-78). É uma situação deplorável. Os escravos se encontram em melhores condições, pois mesmo não sendo livres, não precisam se preocupar com essas necessidades básicas, uma vez que seus patrões lhe dão comida e um lugar para dormir.

                        A parábola tem por finalidade nos ensinar a pedagogia da gratuidade divina. A justiça humana recompensa com base em merecimentos na base do “toma lá dá cá”. A parábola, ao contrário, acentua o “primado da bondade de Deus: sua maneira de agir não contrasta com a justiça humana, mas a transcende totalmente pelo amor” (missal dominical, Paulus, p. 805).

                        Na verdade, todos foram chamados e contratados. Os da primeira hora do dia deviam receber uma moeda de prata depois de uma jornada de 12 pesadas horas de trabalho braçal. Os da segunda hora, isto é, das nove horas da manhã, o patrão combinou: “Ide vós também para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo” (v. 3). Como o patrão saiu ainda outras três vezes, ao meio dia, as três e às cinco da tarde e encontrou gente desocupada, também a esses renovou seu convite: “Ide vós também para a minha vinha!” (v.5-7). Todos os que foram convidados aceitaram o convite. Ninguém recusou. Quanta delicadeza e zelo bom da parte do patrão. Ele sempre pensa na possibilidade de alguém estar sem nada, por isso sai diversas vezes durante o dia a fim de encontrar gente que necessite da sua bondade. Aparentemente todos estão satisfeitos. Porém a insatisfação começa por se revelar na hora do acerto de contas, depois de um longo dia de trabalho para os operários da primeira hora, uma vez que o acerto de contas começa pelos últimos, isto é, pelos que trabalharam apenas uma hora. “A única razão para fazer isso foi para que aqueles que trabalharam o dia todo pudessem ver quanto ganharam os que trabalharam só por uma hora”(idem). Certamente que não demorou a surgir o mal da murmuração. “Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão” (v.11). Todos conhecemos a postura do patrão. Não é uma postura arrogante, porém cheia de nobreza, própria de um senhor. É a postura nobre do pai misericordioso para com o filho que volta – “Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e vai para tua casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti” (vv 13 e 14). “O fato de pagar aos outros a mesma quantia, por menos trabalho, não é injustiça para com o primeiro grupo, ms generosidade para com o segundo” (idem). É bem diferente a visão do dono. Ele tinha consciência de que uma moeda de prata permitiria ao homem sustentar as necessidades primárias da sua família.  Com base nisso, pagou a todos a mesma quantia. “Mais do que precisar o que é certo, calculando o que cada pessoa tinha trabalhado, ele considerou o que cada pessoa precisava” (idem).  

                        Já foi dito que a vinha simboliza Israel. O dono da vinha é Deus. Com essa parábola “Jesus nos revela quem é Deus: um Pai bondoso que age além da justiça e compreensão humana” (roteiros homiléticos cnbb. p. 25). O caminho de Deus é um caminho cheio de Ternura Divina. “A real justiça baseia-se na necessidade pessoal e na generosidade do patrão” (idem). O importante não é ter trabalhado desde a primeira hora. “O importante é ter aceitado o convite com todo o coração, dedicando-nos, depois, inteiramente àquilo para que fomos convidados” (Johan Konings, Descobrir a Bíblia a partir da liturgia, p. 88). Com essa postura, Jesus descaracteriza a religião dos méritos, pois Deus nunca se cansa de caminhar ao encontro do homem para envolvê-lo na sua Divina Ternura. Os operários da primeira hora representam o antigo Israel a quem Deus os convidou ao banquete do reino, mas como se deixou vencer pelo cansaço e indiferença, foi ao encontro de outros que prontamente aceitaram o convite sem merecimento próprio. “Bem-aventurados são os servos que entram antes na vinha do Senhor. Estes se cansaram, com certeza, mas desfrutaram desde o romper da manhã da presença do Senhor” (Pe. Fernando Armellini, Celebrando a Palavra Ano A, p. 336).

                        Sem duvida que o Evangelho nos ajuda a entender a primeira leitura do profeta Isaías. Ao povo abatido e cansado no exílio, sem nenhuma perspectiva de retorno a sua pátria, uma vez que o peso dos seus pecados contra Deus os deixa prostrados em uma profunda humilhação, o profeta lança um grito que é apelo à conversão - “Abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto suas maquinações; volte para o Senhor,…” (v.7). Deus se comporta assim com seu povo, porque, os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, bem como os seus pensamentos não são os nossos pensamentos.

            Pela leitura, vemos que a lógica de Deus é diferente da lógica humana. O profeta insiste para que o povo se converta, deixe o caminho da desconfiança e confie na gratuidade do amor de Deus, pois “a lógica de Deus é a lógica do amor que sempre acha um jeito de nos dar mais do que merecemos. Deus ultrapassa todas as nossas limitações e o nosso jeito de entender a vida”, ele está em nosso caminho e caminha ao nosso encontro. Seu jeito de ser assim nos desconcerta. Só podemos nos deixar envolver em sua Divina Ternura. Ele quer ser achado por nós, por isso nos acompanha em nossas poeirentas e pedregulhadas estradas. Aqui começo a imaginar e a sonhar o encontro entre o amor que procura para amar e o necessitado desse amor que deseja ser amado. É uma festa da Divina Ternura. Aliás, agora começa a faltar palavras para falar da riqueza desse amor. Só me vêm à mente os adjetivos: bondade e ternura. Cultivar um diálogo pessoal com o Divino amor nos ajudará a descobrir a beleza da sua imagem. Essa será a nossa contribuição para o nosso mundo, ajudá-lo a descobrir o verdadeiro sentido de Deus.

                        O salmo responsorial com convites ao louvor divino, canta a misericórdia do Senhor, pois sua “ternura abraça toda criatura!”.

                        Finalmente a carta aos Filipenses contém uma profunda reflexão do Apóstolo Paulo. Preso por causa do evangelho oferece o seu corpo para Cristo ser glorificado. É isso que consiste em viver a altura do Evangelho de Cristo, estar aberto para estar com Cristo ou para os irmãos. A vantagem maior é estar com Cristo, mas ficará se a causa for o anuncio do Evangelho. Só o anúncio do Evangelho o fará adiar o momento do seu encontro final com o Senhor, pois, encontrado pelo Divino amor, sabe que em toda e qualquer situação, o Senhor estará ao seu lado como forte guerreiro. Paulo é testemunha de como os pensamentos de Deus andam por caminhos não humanos, caminhos da misericórdia. Ele mesmo é exemplo de operário da última hora, pois afirma que o “em último lugar o Senhor apareceu a mim como a um abortivo” (1ª Cor 15,8). Só quem fez como ele a experiência do encontro pessoal com Cristo, pode proclamar com toda segurança – “Para mim, o viver é Cristo e o morrer um lucro” (v.21). É dessa descoberta que resulta a centralidade de Cristo na vida de Paulo, diante do qual todos os planos ou projetos pessoais passam para segundo plano. Totalmente transformado e, achado pela Divina Ternura, Paulo pode dizer que Ama Cristo e nós com ele podemos professar cantando “Cristo é minha vida, Cristo é meu viver…”.

 

U.I.O.G.D

 

Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist.

Monge da Abadia Nossa Senhora da Santa Cruz de Itaporanga – SP.

Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP.

Diocese de Itapeva – SP. – Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 



Exaltação da Santa Cruz

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Números 21,4-9

Salmo 78(77) 1.2.34.35.36.37.38

Filipenses 2,6-11

Aclamação Aleluia 3x – Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo!

João 3,13-17

 

 

 

                        Queridos irmãos e queridas irmãs, a liturgia de hoje recorda a dedicação das basílicas que ficam em Jerusalém, Gólgota e Santo Sepulcro. O povo cristão celebra neste dia o triunfo da Cruz do Senhor. Antes, instrumento de tortura e morte, desde o momento em que o Senhor sobe em seus braços, ela se torna altar da redenção. É com alegre confiança que cantamos: “Salve, ó Cruz libertadora!” (canto da entrada) e prosseguimos com esse louvor no canto de comunhão: “Nos orgulhamos na cruz de Jesus Cristo. Nele está a vida e a ressurreição…”. De fato, “exaltamos a Cruz, como sinal que manifesta, para sempre e para todos, o amor de Deus por nós” (roteiros homiléticos, cnbb, ano A, p.15. 08).

                        A cruz se constitui na caminhada dos discípulos “Escola do amor”, isto é, “Escola da Caridade!”. Nessa escola se aprende a ciência da cruz. Por sua vez, o discípulo é chamado a se unir nessa escola ao Cristo em seu mistério de Cruz, a fim de unir-se mais intimamente a ele em sua glória. Com outras palavras, ele é chamado a “participar pela paciência, dos sofrimentos do Cristo a fim de também merecermos ser co-herdeiros de seu reino” (Prólogo da Regra de São Bento, v.50). No mundo, o discípulo deve anunciar Cristo crucificado, “que é escândalo para os judeus, e loucura para os gentios”. Portanto, celebrar a festa da exaltação da Santa Cruz é celebrar o poder, a vitória e a sabedoria de Deus.

                        Como sabedoria de Deus, a cruz se fez presente na vida de Jesus, como o é presente na vida da sua Igreja e de cada membro do seu corpo. De sua presença na vida de Jesus nos fala um padre da Igreja do século VII, Santo André de Creta: “Celebremos a festa da exaltação da santa cruz. Por ela as trevas são repelidas e volta à luz. Celebremos a festa da cruz e junto com o crucificado somos levados para o alto para que, abandonando a terra com o pecado, obtenhamos os céus…” e continua “Se não houvesse a cruz, Cristo não seria crucificado… a vida não seria pregada ao lenho com cravos. Se a vida não tivesse sido cravada, não brotariam do lado do Senhor as fontes da imortalidade, o sangue e a água que lavam o mundo. Não teria sido rasgado o documento do pecado, não teríamos sido declarados livres, não teríamos provado da árvore da vida, não se teria aberto o paraíso. Se não houvesse a cruz, a morte não teria sido vencida e o inferno não teria sido derrotado” (liturgia das horas IV. Pp.1269).

                        No evangelho fica claro que à vontade de Deus é salvar sempre. Nicodemos encontra-se com Jesus e o reconhece como um amigo de Deus. Jesus o reconhece como mestre em Israel, mas por desconhecer o sentido da sua obra messiânica, lhe fala do Filho do homem e da serpente de bronze. As duas imagens, a do Filho do Homem e a da serpente de bronze, são símbolos da manifestação do amor de Deus. No deserto, ao olhar para a serpente após ser picado (números 21,4b-9), Israel é salvo não pelo que ela significa em si (Sab 16,6), mas pelo que representa, ela é um sinal de salvação, é símbolo do Senhor suspenso na árvore da cruz. Revela-se assim a plenitude do amor de Cristo por nós, ele se faz maldito, pois fora dito, “seja maldito todo o que for suspenso numa cruz” (), para que nossos olhos contemplando o que foi traspassado (Jo 19,37), pudessem mergulhar no oceano da Ternura do seu Divino amor e assim fóssemos curados das nossas enfermidades, pois se afirma também em outra passagem “Ele tomou as nossas dores e carregou as nossas enfermidades” (Mt 8,17; Isaías 53,4).

                        O Filho do Homem “será levantado, para que quem nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,15). Jesus ensina que “Deus enviou seu Filho ao mundo para a sua salvação e não para o julgamento. Jesus será levantado na cruz, que se tornará o sinal da sua glorificação. Na presença de Jesus, especialmente de sua cruz, acontece o julgamento para quem não crer e a salvação para quem aceita sua proposta” (Roteiro homiléticos cnbb. Ano A. P.17). Deus costuma se servir dos sinais de fracasso, para manifestar a sabedoria do seu amor. A cruz é companheira do discípulo. Somente abraçando-a com amor, poderemos nos parecer mais com o mestre (Documento de Aparecida n.136). Seguir Jesus pela via da cruz “É um sim que compromete radicalmente a liberdade do discípulo a se entregar a Jesus, Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6). É uma resposta de amor a quem o amou primeiro ‘até o extremo’” (Jo 13,1).

                        “A celebração na qual exaltamos a cruz de Cristo, nos lembra que não precisamos ser heróis. Basta nos sentir profundamente amados por esse amor infinito de Deus” (André Bressane de Oliveira, mensageiro do Coração de Jesus, set.08. P. 8).

            Na segunda leitura da carta aos Filipenses 2,6-11, fica evidente que o caminho de descida e exaltação de Cristo passa pela cruz. A kénosis, isto é, o rebaixamento e humilhação do Senhor, o leva ao mais profundo sofrimento e solidão humanos. Inspirado num hino de louvor e reconhecimento do poderio de Jesus através da cruz, Paulo lembra aos cristãos de Filipos da necessidade de haver entre eles os mesmos sentimentos de Jesus. Isso também se aplica a nós. Sobretudo neste momento nacional de campanha eleitoral, é urgente que nossos eleitores vejam quais candidatos tem sentimentos de humanidade e assumidos valores éticos em suas campanhas. Na verdade essa leitura encontra também sua paralela no texto do evangelho da missa de hoje. Em sua primeira parte (vv. 6-8), se fala do “Filho de Deus que se torna o filho do homem, profundamente humano, rebaixa-se, torna-se servo, obediente até ao extremo da cruz, paixão e morte. Jesus escolheu na terra o serviço, a humildade e a obediência ao projeto do Pai. Sua Kénosis, não significa que Jesus deixou de ser o Filho de Deus ou de ser imagem do Pai: é em seu próprio rebaixamento total que ele revela o jeito de ser do amor de Deus Pai”.

            Jesus é o Messias servo de Deus, portador da Salvação. Por isso, a segunda parte do hino (vv.9-11), celebra sua glorificação e entronização solene, onde recebe a adoração de todo o universo “e toda língua proclama: Jesus Cristo é o Senhor, para a Glória de Deus Pai!” Amém!

 

 

Pe. Basílio j. Ilton Alves, O. Cist.

Monge da Abadia N. Sra da Santa Cruz – Itaporanga – SP.

Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP.

Diocese de Itapeva – São Paulo – Brasil.



XXIII Domingo do Tempo Comum

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Ezequiel 33,7-9

Salmo 94 (versículos 1-2; 6.7.8.9).

Romanos 13,8-10

Mateus 18,15-20

 

 

            Queridos irmãos e queridas irmãs, continuando nossa reflexão dominical sobre as leituras bíblicas da liturgia hoje somos enriquecidos com um tema valioso e rico, baseado no diálogo interpessoal e na existência da comunidade. A liturgia nos oferece como tema central o da “correção fraterna”. Todos sabemos dos grandes desafios e tensões tão presentes em nossas comunidades e, como eles enfraquecem o testemunho de uma comunidade cristã.

            A liturgia deste domingo nos leva a compreender a comunidade como Ícone da presença do ressuscitado através do simbolismo do poder de “ligar” e “desligar”. Um grande teólogo do Brasil, o Pe. José Comblin afirmou em certa ocasião que “as comunidades cristãs são a grande novidade do cristianismo ao mundo, pois elas carregam em si uma maneira nova de estabelecer as relações e solucionar os problemas. Por mais pobre que seja, a comunidade é sinal de Deus e lugar de conversão aos seus caminhos” (Dia do Senhor, Tempo comum ano A, Paulinas, p. 211). Na comunidade, isto é, na Igreja, o pecador deve redescobrir a atuação da misericórdia, pois, é “sobretudo no sacramento da penitencia (confissão), que a Igreja exerce e exprime a misericórdia e o perdão de Cristo” (missal dominical, Paulus, p.793).

            Os textos bíblicos descrevem como deve ser hoje a nossa atuação profética em meio às tensões e conflitos.

            Primeiramente Ezequiel é chamado pela Palavra do Senhor de “vigia para a casa de Israel” (v.7). Vigia ou sentinela são palavras que tem o mesmo significado. Vigia é aquele que guarda, está em atitude de prontidão. Sua atenção e vigilância são elementos indispensáveis no exercício da sua função. Dele depende a vida ou morte de muitas pessoas. Pelo batismo somos nomeados vigia ou sentinela por Deus. O profeta, isto é, todo batizado, deve ser alguém capaz de perceber os caminhos por onde o Senhor quer que o seu povo ande. É sua missão no meio do mundo dizer o que está ou não de acordo com o pensamento de Deus manifestado pela Escritura e revelado plenamente em Jesus Cristo. Cabe a ele, portanto, alertar para os desvios e pecados da idolatria que afastam de Deus e conduz a morte. A responsabilidade pela vida ou a morte dos seus irmãos depende dele. Mas se cumpre bem sua tarefa, não será responsabilizado pela morte que buscaram. “Todos nós somos profetas, todos nós somos sentinelas, somos responsáveis, em parte, pelo destino de nossos irmãos. Quem vê alguém se comportando mal, não pode repetir a frase de Caim: Por acaso sou o guarde do meu irmão?” (Gn 4,9; Celebrando a Palavra Ano A. P.319). Hoje se estimula a sociedade a aceitar sem escrúpulos que se mate de forma indiscriminada. São muitos os verdadeiros profetas do Evangelho da vida que estão sendo ridicularizados pelos homens que pretendem criar leis que estejam acima da lei maior, o amor à vida. Alguns estão sendo processados. Mas não poderia ser diferente para quem se colocou no caminho do discipulado profético. Mas me choca saber que, nos momentos em que nosso povo poderia se manifestar e expressar repúdio por essa ação maligna de atentado contra a vida humana, se note a ausência dos profetas, isto é, dos batizados. A nossa ausência e silêncio não diminuem, antes, aumenta nosso pecado de omissão. Mas gostei de ver num certo programa humorístico da TV brasileira alguém dizer que se deveria aprovar o aborto dos cérebros dos cientistas e dos que negam direito à vida. De certa forma, isso me leva a crer que até mesmo fazendo piadas, há quem, mesmo não tendo declarado sua fé como nós que a professamos e renovamos em cada celebração eucarística, demonstre repúdio total pela cultura da morte.

            Irmãos e irmãs, setembro é o mês da bíblia. Neste mês a Igreja nos Brasil nos propõe ler e meditar a 1ª carta de São Paulo aos Coríntios. A bíblia não é somente um livro que contém uma mensagem, implica uma presença: “é Alguém, é o Deus Vivo”, e São Bernardo declara “Aqui se acha a verdadeira vida e meu espírito não medita senão tais mistérios”. E o padre Bernardo Oliveira, abade geral dos trapistas em seu artigo a Tradição da Lectio Divina quando aborda as convicções que guiam a leitura conclui dizendo: “Abrir a Bíblia é encontrar Cristo, é conhecer Cristo”. Por isso, o convite da oração sálmica (salmo 94), “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não fecheis os corações como em Meriba, como em Massa no deserto aquele dia,…”. Encontrar Cristo e, ouvir a sua Palavra. É essa convicção que deve acompanhar a nossa leitura assídua da Palavra de Deus.

     Todo o contexto do Evangelho é o do convite à misericórdia e ao perdão. O texto começa dizendo: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo!” (v.15). Falei no domingo passado e agora o repito de novo, o caminho do discipulado é caminho e encontro com a Cruz. A cruz é altar de todo esvaziamento humano. A cruz abre caminho que determina a nossa condição de discípulos no seguimento de Jesus através do nosso amor para com Deus e os irmãos. Na Cruz só sobra o amor! E esse amor deve se manifestar pelos pequenos, através do perdão.

            Todos, uma vez ou outra precisa fazer, algum tipo de correção. Para mim é uma tarefa árdua. Por isso a chamo (correção fraterna) de verdadeiro ministério ao mesmo tempo em que reconheço e confesso meu fracasso nessa matéria. Eu até diria que minhas notas não são muito boas. Mas estou consciente de que preciso melhorar. As vezes que errei foi procurando acertar. Nos conforta a todos saber que temos uma orientação da forma sobre como proceder. A Palavra vai sempre iluminando até que um dia só ficará em nós a sua luz, isto é, Cristo.

            Mas com relação aos irmãos faltosos, primeiramente se deve evitar espalhar suas fraquezas, o que é uma prática detestável e antievangélica quando acontece em nossas comunidades. Depois dialogar com ele. Em terceiro lugar, caso ele não tenha se dado conta do seu desvio de comportamento, aprofundar o diálogo com a presença de mais duas testemunhas, não juizes, mas testemunhas, isto é, pessoas com as quais o irmão faltoso tenha um certo respeito e admiração,pois o objetivo é ganhar o irmão. Não dando o resultado esperado, então se apela para a comunidade. Aqui São Bento diria que se aplique a oração de todos por ele(RB 27). Percorridos esses caminhos e o resultado não for satisfatório, somente então seja considerado um pagão ou pecador publico. Mas essa condenação “só é possível quando ele persevera no mal e recusa qualquer correção e perdão. Neste caso, Deus ratifica o que a sua Igreja opera (v.18)”, mas “isto somente pode acontecer nos casos nos quais a falta cometida seja um perigo de inquietação para todos os irmãos, especialmente para os mais fracos na fé”, pois a comunidade é lugar de perdão e de festa (confira evangelho do Banquete do reino Lucas 22, 11). Não ter a roupa adequada ao ambiente do banquete é não ter o amor de Cristo pelos irmãos e se deixar matar pelo egoísmo.

            E finalmente o Apóstolo Paulo resume a prática da vida Cristã: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (v.8). Onde existe amor, não pode existir o mal.

 

U. I. O. G. D

 

Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist.

Monge Cisterciense da Abadia N. Sra da Santa Cruz de Itaporanga – SP.

 




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