Homilia da Missa da noite de Natal 25/12/08
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Queridos irmãos e queridas irmãs, através do advento, a liturgia preparava o nosso coração para esse grande momento celebrativo do nascimento do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, o Redentor do homem. “Nós esperamos o Salvador” (Fl 3,20) e agora, no silêncio desta noite, contemplamos aquele que fora gerado pelo sopro divino no seio da Virgem Maria. Contemplamos o Verbo de Deus, isto é, a sua Palavra, que se fez nossa carne. Toda a humanidade é chamada a contemplar esse mistério de amor. “O mundo admire: um tal nascimento é digno de Deus” (Hino para o ofício de leituras do tempo do advento após 16 de dezembro).
Caríssimos irmãos, essa noite nos revela um segredo: Deus pisou em nossa terra para ficar conosco. Deus pisou em nossa terra para “salvar o homem e a mulher formados do barro” (antífona Ó do dia 23 de dezembro). Ele é o Emanuel, o Deus conosco, para sempre.
O natal é uma mensagem de amor. O natal nos revela a ternura do pai no rosto sorridente de uma criança. Como é cativante o sorriso de uma criança. Faço essa experiência no meu contato com as crianças da nossa comunidade, isto é, com os seus filhos. O sorriso delas me educa a viver o amor de Jesus. No natal, “Jesus anuncia que quer plantar de novo a sua tenda aqui entre nós, mas também entre todos os povos da terra”. Contagiados ainda pela V conferência, queremos assumir o compromisso de uma Igreja missionária no “continente da esperança”. “Nós esperamos o salvador” (Fl 3,20). Guerrico de Igny no 1º Sermão para o advento nos ensina que, “a espera dos justos é alegria, pois o que eles aguardam é a esperança feliz e a vinda gloriosa de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo”(Tt 2,13). Mas será que ainda há espaço em nosso tempo para essa espera? Parece que não há mais nada a fazer senão buscar uma completa satisfação de toda sorte de desejos. Por isso, a festa do natal vai aos poucos perdendo o seu significado. Em torno do natal a mensagem que se anuncia é a do bem estar, dos presentes, dos enfeites, das luzes artificiais que ofuscam o olhar do homem impedindo-o de olhar para Cristo Redentor do homem. Então novamente nos perguntamos: “o que posso esperar?”. Podemos continuar esperando o Senhor, ele que é a única esperança do homem. Não ficarão decepcionados os que em ti esperam (Sl 24,3). Nossos pais te esperaram; todos os justos, desde a origem do mundo, esperaram em ti e não foram decepcionados (Sl 21,6). Depois, reconhecendo na humildade da carne a majestade divina, eles dizem: “Eis, este é nosso Deus, nós esperamos nele, ele nos salvará. Este é o senhor em quem esperamos!” (Sl 25,9). Esse é o segredo que Deus revela a sua Igreja no silêncio desta noite, para que ela o anuncie a todos os povos.
Queridos irmãos e queridas irmãs, olhando a realidade do mundo atual parece que nada mudou, desde quando foi anunciada profeticamente a vinda do Senhor. O povo que andava na escuridão, nos porões das prisões, a margem da sociedade, com fome e humilhado, atingidos pela violência que derrama tanto sangue, esse povo sofrido ao qual o profeta Isaías faz referência na 1ª leitura (9,1-6), revive ainda hoje a mesma dor e sofrimento. Para eles e para nós hoje, a mensagem profética é de esperança: as trevas, a escuridão, o sofrimento acabarão. Uma grande luz iluminará a vida dos sofredores. Essa luz é um menino – “Por que nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz”. Nos dias desse menino, começará um Reino novo: O jugo que oprime o povo será quebrado, não haverá mais violências, todos os instrumentos de guerra serão destruídos, botas e mantos manchados de sangue, serão queimados ao fogo. As palavras proféticas de Isaías se referem ao nascimento de Jesus. Seu nascimento marca um momento novo na história, ou melhor, seu nascimento divide a história para reuni-la em seu amor. “O reino de paz, de amor e de justiça, iniciado por esse menino rei, nós o constatamos todos os dias, ainda não está realizado. É pequeno ainda como um menino. Nasceu, sim, mas deve crescer, desenvolver-se contando com a nossa colaboração. Deus quer salvar o mundo, mas não exclui a colaboração humana. Através do salmo responsorial (Salmo 95/96) proclamamos que Deus governa os povos com justiça e fidelidade e assim cantamos no refrão: “Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor”.
Hoje Deus nos revela o segredo do seu coração. Ele tem um rosto e seu rosto carrega um eterno sorriso. O sorriso de Deus aquecia a fria noite na gruta de Belém e ao mesmo tempo atraia os que carregavam a marca da dor em seu rosto para se alegrar com seu nascimento. Frio, escuridão, corações fechados, distrações, falta de hospitalidade, marcavam a noite em que Jesus nascia. É o reino da morte fechado à vida. Silenciosamente, Deus vai ao encontro do homem aqui representado pelos pastores para lhes anunciar: “Eu vos anuncio uma grande alegria,… Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (v 10.11). É um anúncio que quer dizer: “Cristo, Redentor do mundo é aquele que penetra, de maneira singular e que não se pode repetir, no mistério do homem e entrou no seu coração. Cristo, novo Adão, na revelação do mistério do Pai e do seu Amor, revela plenamente o homem ao homem e descobri-lhe a sua vocação sublime” (João Paulo II, Redemptor Hominis, 8).
Amados irmãos, a salvação nasce entre os sofredores e excluídos (pastores). A eles se dirige a mensagem dos anjos na noite fria de Belém: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e Paz na terra aos homens por ele amados” (v14).
O mundo precisa acreditar na força do amor. Os cristãos precisam testemunhar a ternura de Deus para que o mundo creia que a “A graça de Deus se manifestou trazendo salvação para todos os homens” (2ª leitura Tt 2,11). O mundo novo já começou na noite santa do nascimento de Jesus em Belém. Todavia, não está acabado, há muito por fazer ainda. É preciso haver uma renovação completa da nossa vida, a renúncia ao mal e aos maus desejos (impiedade, paixões mundanas) e uma firme e corajosa adesão ao Senhor, ou seja, se deixar render pela proposta do Evangelho que se traduz na pratica da justiça, da honestidade, e um desapego aos bens passageiros deste mundo.
Nessa noite fomos todos a Belém, casa do Pão. Lá encontramos a Palavra eterna de Deus que se fez carne e pão na eucaristia. Hoje conhecemos o segredo de Deus, Deus “deixa-se ver agora por meio do seu Filho,…” (Sto Irineu, Tratado contra as heresias. LH. Pág. 248. Vol. 1). “Para ele queremos olhar, porque só nele, Filho de Deus, está à salvação” (Redemptor Hominis, 7).
Maria, educada na escola do amor de Deus, é um coração preparado para amar e acolher a vida. Agora, discípulos missionários do seu Filho, queremos educar o nosso coração para ver e acolher Deus nos pequenos e fracos. Cada um seja uma mensagem do natal. Feliz Natal a todos!
Pe. Basílio J. Ilton Alves, O. Cist.
Monge Cisterciense da Abadia Nossa Senhora da Santa Cruz de Itaporanga – SP.
Pároco da Paróquia Bom Jesus de Riversul – SP – Diocese de Itapeva – SP – Brasil.
